sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sobre pequenas grandes mudanças

      Já fazem alguns meses que as obras do trensurb estão chegando em minha cidade, mas até então não haviam afetado a minha rotina, pelo menos nada que eu tivesse me dado por conta. É verdade que já tinha me indignado quando soube que as árvores  nas margens do valão seriam todas derrubadas para abrirem espaço. Agora começo a testemunhar algumas singelas mudanças que ficam ofuscadas pela grandiosidade da obra e a magnitude das máquinas, pilares de aços e ferros.
     Todos os dias desço por uma avenida que cruza o trajeto previsto para a obra. No último mês começaram a aparecer os objetos estranhos até que, nesta semana, apareceu uma engenhoca horrorosa com um barulho estrondoso que, do meu leigo ponto de vista, parece que serve para alicerçar os enormes pilares de aço ou ferro, ou sei lá de que metal. Sei que aquele movimento de um "martelo gigante" e o som que produzia me atingiram grosseiramente, produzindo uma certa agonia, quase uma violação. Foi quando pensei: "coitadas destas pessoas que trabalham nestes estabelecimentos próximos, ter que aguentar todo este transtorno". Nisso eu também incluí o tradicional vendedor de rosas que fica sentado ali no semáforo. Uma vez eu comprei suas rosas, naquela loucura de fazer a transação rápida antes de abrir o sinal para o fluxo de carros, o senhor de idade gritou suas recomendações de como cuidar das flores enquanto eu arrancava o carro. Gostei dele, suas recomendações tinham um tom de preocupação com as rosas. E é sobre isso que quero escrever, sobre o registro do confronto entre a imposição da obra e a delicadeza do vendedor de rosas.   
     Cena que eu avistei num relance enquanto passava dirigindo de manhã cedo em direção ao trabalho e que poderia ter sido como uma outra cena qualquer, tipo as paisagens que agente não vê direito porque passa rápido, que nem nos dão tempo de pensar muito porque em seguida já vem outra, tipo os cachorros mortos na BR-116 que são tantos.
      Refiro-me  á manhã em que o vendedor das rosas não estava sentado em seu banquinho habitual com suas rosas acomodadas ao redor. Ele estava em pé, no outro lado da rua, segurando meia dúzia de ramalhetes em cada braço, e virado de frente para a engenhoca estrondosa em pleno funcionamento. Ele olhava para engenhoca, olhava para suas flores e voltava o olhar de submissão para a engenhoca que era alta e lhe exigia que inclinasse a cabeça. Parecia meio atônito.  E então, em questão de segundos, ele já não estava mais no meu campo de visão. Mas aquele fragmento de imagem ficou registrado em mim.     
      Quando as obras estiverem prontas, e o trensurb em pleno funcionamento, será mais econômico utilizá-lo (e mais ecológico também?!) para o deslocamento ao meu trabalho que é em outra cidade. Será uma grande vantagem! Mas... na velocidade do metrô não há nenhuma possibilidade de visibilidade para o cotidiano do vendedor de rosas.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

    Nunca faço questão de passar uma primeira boa impressão. Mais uma vez, antes pelo contrário. Aliás, nunca me antecipo em mostrar o que tenho de melhor. Até porque o meu melhor vai depender do quanto minhas fragilidades serão aceitas. Assumir isto em um mundo onde impera a concorrência e a exigência por pessoas sagazes, eficientes, dinâmicas e pró-ativas não é simples. É preciso ter muita paciência com as expectativas alheias e suportar uma carga de projeções tremendas!!
   Mas, ao mesmo tempo, estar em uma posição subestimada também nos possibilita identificarmos logo de cara com quem realmente poderemos contar, quem é mais despojado de preconceitos, quem está mais tranquilo com sua humanidade demasiada humana (parafraseando Nitzsche) e aberto para encontros criativos.
    Todo mundo quer reconhecimento, mas muito cuidado com os elogios: eles são uma ótima estratégia de adestramento!!




sábado, 20 de agosto de 2011

       Depois de ouvir de Eduardo Galeano que ele escreve por dezoito horas seguidas até que seu cachorro lhe convença que é hora de sair para caminhar, resolvo que não mais esperarei pela minha inspiração. Eu caminharei a procura dela. E quando a encontrar será necessária coragem para encará-la.
     Na mesma entrevista, Galeano também diz algo sobre a sua escolha de viver em um lugar bom para caminhar e para respirar. Isto me fez refletir sobre o fato de que para respirar é necessário o movimento de inspirar. E eu que procurei seguidas vezes o ottorrinolaringologista com a queixa de que achava a minha respiração ineficiente, até cirurgia no nariz eu fiz, mas nunca me senti satisfeita com a quantidade de ar que costumo inspirar.
    Os profissionais da saúde recomendam: "Para uma caminhada saudável é necessário respirar adequadamente". Porém eu farei o inverso, caminharei para aprender a respirar, ainda que passe por tonturas e descompassos.
     Caminhando com os dedos sobre o teclado, neste lugar onde "Então escrevo", talvez conquiste um pouco mais da força necessária para inspirar, assim como para expirar, descartar tudo aquilo que não me cabe mais.
 
 
Recomendo o vídeo sobre a entrevista que citei. Assistam até o fim, sem expectativas. Vale a pena!
 
 
 
Respirar. (do lat. respirare) V. int. 1. Absorver o oxigênio do ar dos pulmões, nas brânquias, nas traquéias, na pele, e expelir o gás carbônico resultante das queimas orgânicas, depois de se realizarem as trocas necessárias para gerar a energia indispensável à manutenção da vida... 3. Ter vida; viver: O doente ainda respira. 4. Dar-se a conhecer; revelar-se, manifestar-se: Quando ela sorri, respiram a beleza e a simpatia de seu semblante. 5. Conseguir alguns momentos de descanso em trabalhos, aflições, dificuldades, etc. ; folgar: O trabalho não a deixa respirar. 6. Agitar-se, produzir-se (o vento); soprar. 7. Respirar: "Quem imaginará que se pegue de um homem dos campos, onde respira o ar livre e puro, para meter-lhe uns calções de corte  e fazê-lo dançar o minuete?(Machado de Assis, A Semana, II, p.21) 8. Ter cheiro de; recender a: Seu corpo respirava rosas. 9. Lançar fora; expelir, exalar: O vapor respirava fumaça. 10. Manifestar, exprimir, revelar; denotar; transpirar: A face do condenado respira tranquilidade; "Tudo respirava asseio" (Rebelo da Silva, De noite todos os gatos são pardos, p.84); 11. Mostrar desejos de: Os injustiçados respiravam vingança. 12. Gozar, fruir, desfrutar: respirar a liberdade. 13. Fig. Nutrir-se ou alimentar-se com: Os sábios respiram ciência. (NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Então eu escrevo!

Compreender que há incompreensíveis;
Libertar-se das expectativas;
Acolher quem não está cabendo em si;
Respeitar o tempo das reticências;

Então eu escrevo...